Eu não sei como me despedir. Não sei dizer algo que não seja até amanhã.
Eu não sei porque gosto tanto de você. Talvez seja por sermos tão parecidos, talvez seja por eu querer tanto ser como você. A verdade é que eu sinto, e eu sinto muito. Eu sinto o tempo todo e eu sinto muito por sentir tanto. Queria não. Queria deixar pra lá, queria me esquecer, queria dizer tchau e ir.
Cê vai mas eu fico. Cê vai e eu fico aqui querendo que cê volte.

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sou facinha assim, sim
me faz carinho
me enrola o cabelo
me beija na pontinha do nariz

vê o dia rotacionar
te cubro os olhos quando clarear
e se cai descubro o corpo
tua pele

eu vou facinha, vê
ronrono na curva do teu pescoço
arranho de puro amor
dou beijinho se doer

mas se pisca eu já fui
teu nome não me lembro
esvazio pra poder encher
transbordo

Me pego pensando no que realmente gostaria de ser e fujo. Não seria a primeira vez, visto que sempre fugi de mim. Dos outros. Do mundo.
Quão demente é precisar de motivos para permanecer, quão torto e errado é nunca se bastar.
Pinto o corpo e grito na rua, grito à violência e ao abuso, grito ao mundo quando sou incapaz de dizer à mim mesma. O barulho incomoda e o silêncio tortura.
Quantas cordas, agulhas e martelos foram necessários para não desistir. Quantos furos, rasgos e roxos foram empilhados em um corpo cansado e incapaz.
Me amarro, me costuro e me prendo à um mundo que não quero estar.
Colo a pele macia em um corpo partido.
Bordo pelos em uma mente quebrada.

Sempre fui sem aviso prévio. Nunca soube dizer adeus.

PT I

(não consigo, ainda que eu queira falar sobre aceitação e perdão, me perco nas palavras, que por ora parecem ser tão poucas. Quero dizer sobre como aceitei ser uma pessoa quebrada, sobre o exercício diário e doído que é me perdoar. Quero dizer sobre como nunca vou amar de novo, ou ainda, como nunca vou deixar de te amar. Quero te dizer que talvez eu não seja tão ruim assim, talvez eu só seja extremamente bagunçada e não tenha te poupado em se perder por aqui. Quero te dizer que eu não quis dizer muitas coisas, que no meu silêncio eu costumo ser uma pessoa muito melhor. No meu silêncio eu te acho tão bonito, tão inteligente, tão seguro. Em silêncio eu sempre agradeci, sempre sorri. É que não sou tão boa com as palavras.Vê, em um minuto eu digo que não há palavras suficientes, em outro meus dedos batucam tão rapidamente o teclado que sou capaz de acordar toda a casa. Não que eu não acorde sempre, não consigo me lembrar da última vez que dormi. Percorro os corredores vazios todas as noites, me sento na varanda e sinto meus ossos doerem de frio. Acendo um cigarro, engulo um café, cantarolo canções de dormir. Balanço meus pés, enrolo o cabelo, cutuco feridas e deixo pingos de sangue pelos lençóis brancos. Te afasto dos meus pensamentos, ou finjo que o faço. Sou boba mesmo.)

Talvez eu deva começar do início.

Boybands nunca fizeram minha cabeça. Detesto música alta e não consigo comer no escuro. Sou viciada em auto-sabotagem e nada me irrita mais que movimentos repetitivos. Arranco todas as cascas de feridas, minhas pernas sempre estão machucadas e todas as manhãs minha pressão é ridiculamente baixa. Analiso todas as pessoas, todo o tempo, e sou obcecada em tentar entendê-las. Uma vez por dia, no mínimo, penso em me matar. Duas vezes, em matar alguém. Meu nariz escorre quando me canso e meus lábios sempre estão cortados. Não penteio o cabelo, odeio unhas compridas e encaro, sem querer, os pés das pessoas. Sou alérgica a todos os insetos e a quase todas as comidas. Gosto muito de unir a auto-sabotagem às alergias, sempre como o que não posso e me arrependo amargamente depois. Não tanto quanto deveria.
Falo muito alto e tenho algo com gesticular demais. Faço barulho de porco quando rio e até hoje babo enquanto durmo. Detesto cheiro de sol e detesto mais ainda quando não entendem o que cheiro de sol é. Nunca soube operar com fração e acho equações maravilhosas. Planejo morar no Japão desde os 8 anos, mas pretendo passar um tempo na Rússia antes. Amo cheiro de bucha de banho e de café fresco. Todos os anos digo que vou parar de fumar, aprender francês e tocar piano. Transformo as pessoas em textos achatados, músicas bregas e em desculpas para dormir por dias. Tomo mais remédios do que deveria e bulas são minha leitura preferida. Só acredito em algum deus quando meus gatos fogem e odeio funerais. Não me importo muito com a morte, seja dos outros ou minha.
Gosto muito do seu cabelo, dos seus olhos e das suas roupas. Gosto dos filmes que assiste e das músicas que escuta antes de dormir. Gosto do seu sotaque, do seu cheiro e do seu toque. Gosto das suas sardinhas e de como você me transforma em uma leitura suave. Detesto quando você some e penso em tantas formas de chamar sua atenção. Pesquiso seu nome, ligo pra sua casa, tenho orgasmos sempre que sonho com você. Sonho com você desde garota.
Gosto de você há tanto tempo. Gostei de você antes de gostar de mim.
Eu amo você mas hoje amo mais a mim mesma.

Sinto tanto por você não entender nada disso.

08/02/15

Quando digo que amo, digo no sentido mais puro da palavra. Sem tensão ou conotação sexual, sem possessão e sem paixão. Amo porque amo, amo por amar. Não amo pra ser amada. Sou muito intensa, me jogo de cabeça e termino por ter a a testa rachada. E olhos, boca e coração também. Se me dissesse ‘vem, que te quero hoje. que te preciso agora. que te espero.’, saltaria no primeiro trem, na primeira barca, na primeira estrada que encontrasse. E iria, sem saber quem ou o que me espera. Iria por amar, por amar tanto, por amar demais. Por amor à ti e à mim também. Porque me amo pra caramba, me amo o suficiente pra conseguir transbordar e amar tanto e tanto e tanto os outros.

Não sei o que quero não, mas o que não quero eu já sou certa. Não quero abuso, não. Não quero impotência, dependência, posessão, briga, rancor, raiva ou tristeza. Aceito que esses últimos tendem à vir no pacote, mas não deixo de ter certa aversão por já tê-los sentido demais nessa minha vida curtinha. Também não quero o incerto, o duvidoso, o nublado. Que se posso ser clara, minha vida também deveria o ser.

Da mesma forma, tenho consciência que possuo uma bagagem demasiadamente problemática. E cheia. E chata. E cansativa. Não é qualquer um que aguenta, eu sei, nem sempre aguento com um sorriso na cara. É que no fast food da vida, sou o sanduíche com picles. Eu odeio picles.

Já nem mais sei o que quero dizer, talvez só que eu tô aqui agora, mas não fico pra sempre. Embora queira, eu não fico não. Não aguento o mesmo lugar em mim, os mesmos sentimentos e temores, as mesmas dores. Se me dói hoje, amanhã extermino. Me doeu ontem, relutante deixei que permanecesse, falhei no meu amor próprio e me deixei imersa em angústia e mal-querer. Não gosto disso, não me gosto assim.

Reprimo o que sinto e penso por medo – e puramente medo – de que se assustem comigo. Se assustem ao perceber a imensa fatia de picles que é meu coraçãozinho. Mas a prisão dói, e antes a fuga que a dor eterna. Aprisionada na minha garganta, tentada a vazar.

Acendo um cigarro, tomo um café e espero mais um pouquinho. Espero por saber que sou certa de mim, mas não estou certa todo o tempo. E o tempo não é todo meu, também.

Na esperança de ser tremendamente breve,

até.